
Zé: (...) E eu me lembrei então que Iansã e Santa Bárbara e prometi que se Nicolau ficasse bom eu carregava uma cruz de madeira de minha roça até a igreja dela, no dia de sua festa, uma cruz tão pesada como a de Cristo. (O Pagador de Promessas – Dias Gomes)
Ao fazer sua promessa, Zé-do-Burro propõe como forma de pagamento carregar uma cruz tão pesada como a de Cristo. A personagem escolhe a “cruz”, como presentificação da sua fé, para isso, vamos compreender um pouco sobre os significados da cruz enquanto objeto simbólico.
A cruz é um dos símbolos mais antigos e apresenta-se cheia de significados para diversas civilizações. Na tradição cristã, a cruz é simbolicamente a imagem da salvação e da paixão de Cristo pelos homens. Segundo o “Dicionário de Símbolos”, na tradição cristã, a cruz simboliza o Crucificado, o Cristo, o Salvador, o Verbo, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Ela é mais do que uma figura de Jesus, ela se identifica com sua história humana, com a sua pessoa.*
A crucifixão era uma forma de pena oriental que foi introduzida no Ocidente pelos persas. Ela foi pouco usada pelos gregos, mas muito utilizada pelos cartagineses e romanos. Na literatura romana, a crucifixão é descrita como punição cruel e temida, não sendo aplicada aos cidadãos romanos, mas apenas aos escravos e aos não-romanos que houvessem cometido crimes atrozes, como assassínio, furto grave, traição e rebelião. A cruz não é mencionada no Antigo Testamento.
Os romanos crucificavam os criminosos inteiramente nus e não motivo para se pensar que tenha sido feita alguma exceção para Jesus. As vestes do crucificado eram entregues aos soldados (Mt 27, 35). Uma inscrição com o nome do criminoso e a natureza do seu crime era feita sobre uma tabuinha, que o condenado levava pendurada no pescoço até o local da execução; essa tabuinha com a inscrição foi depois afixada acima da cabeça de Jesus na cruz. Por ironia de Pilatos, a inscrição de Jesus não indicava um crime, mas registrava simplesmente a expressão "rei dos judeus" (Mt 27, 37; Mc 15, 26; Lc 23, 38; Jo 19, 19-22).
Diante de tanto simbolismo, o modo como Zé escolhe para pagar sua promessa, acaba tornando-se uma audácia aos olhos autoritaristas de Pe. Olavo, que interpreta o ato como uma tentativa do simplório Zé em torna-se um “Novo Cristo”.
Outro aspecto relevante é o peso da tal cruz, Zé logo de início faz notar os ferimentos que o peso da cruz lhe causou por carregá-la sete léguas. Todo esse sacrifício é feito para a cura de um burro, que é historicamente conhecido como um animal de carga, ou seja, característico por servir ao homem como carregador de peso. Na história de Dias Gomes, os papéis são invertidos, quem carrega o peso é o homem em favor do burro.
* CHEVALIER, J. e GHEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos (mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números). 12. ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 1998.
Super interessante este artigo sobre a cruz!
ResponderExcluirGalera a cada dia fica mais fascinante e divertido entrar no blog ou ir aos ensaios no sábado...
A galera lá de casa já está todo mundo de certa forma "respirando" O Pagador de Promessas! Ontem, ouvi minha mãe ao telefone divulgando nossa peça rs!
É isso! Beijão para todos!